• Bruna Ramos da Fonte

O LADO OCULTO DA "MOCINHA" | #03


Se você já teve a oportunidade de assistir “A feiticeira” – aquela famosa série de televisão da década de 1960 – conhece Samantha, uma bruxa que, ao se casar com James – um publicitário mortal que não aceita os seus poderes mágicos – acaba renunciando às facilidades que a mágica poderia trazer ao seu dia a dia de mãe e dona de casa. Assim, na maior parte do tempo ela se esforça para levar uma rotina comum – limpando, cozinhando, lavando e cuidando dos filhos enquanto espera o marido chegar ao final do dia –, mas como a sua essência ocasionalmente fala mais alto, nos momentos em que o marido não está, vez ou outra ela acaba por lançar mão dos seus poderes a fim de facilitar um pouquinho a sua rotina.


"Quantas vezes deixamos de seguir nossos sonhos, sabendo que certas realizações poderiam causar algum tipo de conflito familiar ou conjugal?"

Uma grande metáfora da vida da mulher da época – e, infelizmente, de muitas Mulheres Modernas ainda nos dias de hoje – na série é nítido o esforço que ela faz para ser menos do que poderia ser, somente para agradar seu marido que não consegue aceitar e lidar com o fato da esposa ter habilidades e poderes que ele não tem. Criada em uma época na qual a mulher lutava para ter independência e liberdade sobre a sua própria vida e sobre as suas próprias escolhas, a série expõe com nitidez os conflitos de uma mulher que buscava conciliar o papel esperado que ela desempenhasse como mãe e dona de casa, aos seus próprios dons, desejos e sonhos mais genuínos e ocultos.


Quantas vezes abrimos mão do melhor que há dentro de nós na tentativa de nos encaixarmos nos padrões da sociedade ou para atender às expectativas do outro? Quantas vezes deixamos de seguir nossos sonhos, sabendo que certas realizações poderiam causar algum tipo de conflito familiar ou conjugal? Trabalhando em ambientes como escolas e empresas com grupos de empoderamento feminino, tive a chance de conviver com mulheres de diferentes faixas etárias e classes sociais e, com maior frequência do que gostaria de admitir, ouvi histórias de mulheres que apanharam ou foram expulsas de casa pelos seus pais, mães – sim, existem mães extremamente machistas – ou maridos, pelo simples fato de terem se matriculado em um curso profissionalizante ou por terem conseguido um emprego.


Seja por motivações culturais, religiosas ou até mesmo por hábito, é comum que em muitas casas desde pequena a menina acabe sendo limitada nos mais diversos aspectos, pois há uma tentativa de moldá-la para desempenhar aquele que muitos ainda acreditam ser o papel da mulher. Ao ser apresentada ao “mundo da mocinha”, ela aprende que ser espontânea, dar uma risada gostosa quando sentir vontade, expressar suas ideias e pensamentos mais profundos, estar feliz e sentir-se à vontade com o seu corpo são comportamentos inadequados para uma menina. Com isso, os movimentos ficam limitados, as vontades ficam restritas e, depois de adulta, são muitos os momentos em que você se vê em dúvida se tem permissão ou não para ser você mesma.


Quantas vezes você já se viu agindo como a Samantha – que esconde seus poderes mágicos para não desagradar às pessoas do seu convívio? Com que frequência você tem ocultado o melhor que há dentro de si, somente para se encaixar nos padrões que um dia alguém impôs? Não tenha medo de questionar os seus comportamentos e escolhas: é você mesma quem está guiando os seus passos pelas estradas da vida ou você tem caminhado sobre o chão das crenças antigas e ultrapassadas que a nossa sociedade ainda cultua?


Nunca se esqueça, Mulher Moderna, que ser autêntica – e viver de acordo com os seus próprios sonhos – é um direito que não pode ser tirado ou minimizado por ninguém. E, aquelas pessoas que verdadeiramente amam e respeitam você, seguirão amando e respeitando mesmo depois de conhecerem o lado oculto da “mocinha” que você um dia aprendeu a ser.

Crédito da imagem: Pixabay

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