• Bruna Ramos da Fonte

A CASA É DAS MENINAS E DOS MENINOS | #2


A mãe está na cozinha terminando de preparar o almoço de domingo, enquanto os filhos – um menino e uma menina – estão brincando no tapete da sala. A comida está quase pronta e a mãe, sem pensar duas vezes, pede para que a menina pare de brincar para ajudá-la colocando toalha, pratos e talheres na mesa. Enquanto a menina ajuda a mãe, ao menino é permitido seguir brincando até a hora em que todos se reúnem para almoçar.


Você já viu ou vivenciou esta cena que acabo de descrever? Se você tem um irmão homem, pode ser que em algum momento tenha passado por algo parecido enquanto filha. Agora, se você é mãe de menino e menina, pode ser que tenha se visto fazendo o papel dessa mãe; se isso aconteceu e você ficou preocupada com a diferença de atribuições que confere a cada filho, não se desespere, pois em algum momento da vida todas nós repetimos os papéis que tivemos como modelo e que acreditamos ser corretos ou adequados para cada gênero. É por isso que convido você para compartilhar essa reflexão comigo.


Em casas onde há meninos e meninas, é comum ver esse tipo de cena acontecer com frequência, evidenciando a diferença na criação de um e de outro. Apesar de toda a luta pela igualdade que travamos nas últimas décadas, ainda carregamos no nosso comportamento uma série de estereótipos e papéis pré-definidos de gênero que parecem ter vindo conosco na nossa versão de fábrica. Isto porque, durante milênios, vivemos de acordo com os papéis de gênero que um dia foram compulsoriamente atribuídos para homens e mulheres com base em crenças que hoje já não cabem mais no contexto da nossa sociedade contemporânea.


Muitas de nós seguem acreditando que as tarefas domésticas são funções exclusivamente femininas e, com isso, os reflexos da criação que tivemos afetam a qualidade das convivências que temos na vida adulta. A abstenção do homem nas atividades domésticas faz com que toda a carga caia automaticamente nos ombros da mulher que, apesar de sentir-se incomodada e exausta com o excesso de funções que acaba exercendo, por vezes não enxerga uma saída senão seguir desempenhando o papel que acredita ser seu por obrigação enquanto mulher da casa.


Veja bem, com isso não estou dizendo que há problema em gostar de desempenhar atividades domésticas. O que estou dizendo é que não é somente a mulher que tem a habilidade para desenvolvê-las e que, dentro de uma casa – onde homens e mulheres, meninos e meninas – compartilham o mesmo espaço, é preciso que haja divisão de tarefas de maneira igualitária independentemente do sexo biológico de cada um.


"Apesar de toda a luta pela igualdade que travamos nas últimas décadas, ainda carregamos no nosso comportamento uma série de estereótipos e papéis pré-definidos de gênero que parecem ter vindo conosco na nossa versão de fábrica."

Instintiva e intuitivamente, nós acabamos perpetuando esse tipo de comportamento que não inclui e não responsabiliza o menino nas atividades da casa. É preciso que sejam atribuídas funções desde cedo, para que ele possa compreender que também é parte daquele espaço e que precisa colaborar para a sua manutenção. Nós precisamos aprender a ser – e ensinar os nossos filhos a serem – pessoas autônomas: homens que sabem preparar suas refeições e lavar suas próprias roupas, mulheres que sabem trocar a resistência do chuveiro ou pendurar um quadro na parede.


Penso que não basta ser uma mulher preocupada com igualdade de gênero somente da porta para fora: é preciso que essa consciência comece dentro de casa e que ela esteja presente no dia a dia familiar. É preciso que a gente questione e se desvincule cada vez mais desses papéis pré-estabelecidos e limitantes, pois dentro de uma casa onde há a divisão igualitária de tarefas, a mulher deixa de exercer aquela dupla jornada que, além de exaustiva, faz com que ela por vezes sinta-se infeliz e insatisfeita com a sua condição de mulher.


Mas, para que a mudança comece a acontecer efetivamente, é preciso que você entenda que abandonar papéis de gênero aos quais está acostumada não irá fazer de você menos mulher. É preciso que você tenha a certeza de que os homens com quem compartilha o mesmo espaço – sejam eles pais, irmãos, maridos, filhos ou colegas de trabalho – têm capacidade para exercer essas funções com tanta propriedade quanto você. E é preciso que você compreenda, principalmente, que a vivência da igualdade de gênero começa dentro de casa.


Me diga, Mulher Moderna, você está pronta para começar a dividir e a delegar aquelas funções todas que um dia aprendeu que pertenciam exclusivamente a você?


Crédito da imagem: Pixabay

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